Apesar de tudo, as noites no sertão ainda são belas

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Por Tania Maria Pellin

Visconde de Taunay, Engenheiro Militar, Historiador, participou da Guerra do Paraguai destacado para a Comissão de Engenheiros da Força Expedicionária de Mato Grosso, escreveu dentre outras obras, o clássico Retirada da Laguna – Memórias, e de seus apontamentos foi escrito o romance Inocência. Taunay descreve o sertão em Inocência onde, caminham-se largas horas, dias inteiros sem se ver morada nem gente.

Taunay, ao admirar as noites no sertão de Mato Grosso, durante a Guerra do Paraguai, escreveu em seu diário, as margens do Rio Verde, cuja nascente é na Serra das Araras em Camapuã, Apesar de tudo uma noite no sertão é bela. As descrições de Taunay sobre Mato Grosso vão de exuberância a melancolia. Esta colunista, prefere falar das exuberâncias do sertão de Mato Grosso, como as matas, rios e noites de luar. Manoel de Barros, no poema Águas, assim como em toda sua poesia, canta em versos nossas belezas Desde o começo dos tempos águas e chão se amam. Eles se entram amorosamente E se fecundam.

As noites enluaradas no meu belo Pantanal, são inigualáveis; cujo luar inspira aqueles que ainda sabem apreciar sua beleza, e, não se renderam a tecnologia momentânea, ao invés de se fixarem numa tela, apreciam pássaros e ouvem seu canto, tornando-se cúmplices dos amores e suspiros por eles exalados. Assim como Manoel fomos convidados para o banquete destas águas, exalar cheiro de mato e molhar os pés nas águas do brejo entre camalotes e caranguejos.

Tu, luar, como em outrora se faz presente. Embriagada eu, na beleza que transmites, fico cá a imaginar as noites daqueles que bravamente defenderam o Brasil no período da “Guerra do Paraguai”. Quais eram seus sonhos? Seus ideais? Se pudessem escolher não estariam ali. Foram forçados, convocados ao combate comparecer. E muitos, como Chichorro da Gama, citado em Memórias, de Taunay, morreram da dor da agonia. Deve ter sido desesperador.

Em todos os períodos da história nos deparamos com grandes conflitos.

Na Grécia Antiga, considerada o berço da civilização Ocidental, embalada ao som das espadas, espartanos e atenienses guerrearam na “Guerra Peloponeso”, a rivalidade entre estes povos levou ao conflito armado.O Império Romano, que dominou o “mundo” na época, com suas conquistas, entre eles os conflitos eram evidentes. Julgavam-se donos do mundo, chegando a mudar o nome do mar – mare nostrum, referindo-se ao Mar Mediterrâneo. Einstein, já nos alertava sobre a guerra Nossos livros de escola glorificam a guerra e escondem seus horrores. Eles incutem ódio nas veias das crianças. Eu preferiria ensinar paz a guerra. Eu preferiria incutir amor ao ódio.

No século XIX, fomos palco do maior conflito armado internacional ocorrido na América Latina, a Guerra do Paraguai ou Guerra da Tríplice Aliança. Um episódio sangrento que teve como palco alguns municípios do nosso estado. Por um longo período se temia de um lado Solano Lopes, do outro o Imperador do Brasil, Dom Pedro II. A Guerra impactou profundamente todas as nações beligerantes. O Paraguai, no entanto, sofreu as piores consequências, foi quase na sua totalidade destruído.

Neste período, o terror tomou conta na região, as noites deixaram de ser apaixonantes, passaram a ser de medo e dor. O belo luar do Pantanal passa a não ser desejado, pois os soldados passam a ser alvo fácil a luz da lua.

Mas defender a Pátria era preciso. Quantos heróis anônimos surgiram nas diversas batalhas, em episódios nas quais seus nomes nem foram mencionados, ficaram esquecidos, adormecidos entre os corpos estendidos pela mata, pelo pântano, assim como as Mulheres comuns, senhoras respeitáveis, obra que trata da presença feminina na Guerra do Paraguai.

Quanta dor no olhar do jovem soldado, sonhando com sua amada, sem ter a certeza do retorno. Que sentimento fazia parte do seu cotidiano ao ver seu amigo ferido e agonizando? Como gostaria de ouvir uma bela moda de viola, não o som dos fuzis. Assim como Chichorro da Gama, ou quando Taunay acampado em Coxim temeu pela própria morte. O jovem engenheiro sentia palpitações e pontadas fortes no peito, fruto de infecção na parte interna do coração – endocardite.

Quantas batalhas perdidas para ambos os lados. Neste cenário sombrio, onde o medo aterroriza a cada instante, muitas vezes o jovem soldado olhou ao alto e clamou a Deus, com aquele grito da paz muitas vezes silenciado na escuridão da noite. Para o Papa Francisco, toda guerra deixa nosso mundo pior de como o encontrou.

Um dia a guerra finda fica as histórias contadas à beira da fogueira em uma fria noite de luar, histórias que falam da valentia do bisavô no período da guerra, e, naquele mesmo sertão agora pairam a paz e tranquilidade tão sonhadas em outrora.

E, talvez ao som de um violão um jovem soldado junto com sua família,  sonha com a linda moça que roubou seu coração.

Mesmo em tempos de guerra as noites no sertão ainda são belas.

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